50 Dicas de Marketing Cultural
Por Fernando Portella*
1- O MARKETING
CULTURAL é uma estratégia utilizada pelas empresas
para que, através de patrocínios a projetos culturais,
agreguem valor às suas marcas.
2- O MARKETING CULTURAL é uma vertente do Marketing Institucional
das empresas, ou seja: tem a ver com a sua marca, sua identidade
e os valores subjetivos associados ao seu nome.
3- O aumento da venda de produtos com o MARKETING CULTURAL não
pode (salvo algumas estratégias específicas) ser
medido pelos métodos tradicionais. Por exemplo: o MARKETING
CULTURAL permite um grande retorno de mídia espontânea,
que medido em valores financeiros, com base na tabela de publicidade
dos veículos de comunicação, pode superar
em até 10 vezes o valor do patrocínio.
4- Não se pode apresentar um projeto para uma empresa (possível
patrocinadora) sem conhecê-la antecipadamente. É
preciso saber o que ela faz, o que produz e o que já patrocinou.
Este PERFIL DE EMPRESAS PATROCINADORAS vai ajudar você a
conhecer melhor as empresas.
5- Todo bom projeto é composto basicamente por: uma apresentação
sucinta, uma descrição técnica (como vai
ser realizado), um orçamento enxuto, um cronograma de execução
e um de desembolso, um currículo dos proponentes e técnicos,
uma descrição objetiva dos "retornos propostos
ao patrocinador" e anexos (bem escolhidos). Mas um dos elementos
principais é a carta de apresentação do projeto,
que deve ser personalizada, plenamente identificada com a empresa
que se pretende transformar em parceira da nossa proposta.
6- Não se utiliza o MARKETING CULTURAL, partindo do produto
cultural. Neste caso o caminho deve ser inverso, é o do
"CULTURAL MARKETING", ou seja: da construção
das estratégias eficazes que poderão viabilizar
o projeto cultural no mercado. Quem faz MARKETING CULTURAL é
a empresa, estabelecendo um conjunto de critérios objetivos
de seleção de projetos, em sintonia com seus objetivos
institucionais e de marketing de produtos ou serviços.
7- O MARKETING CULTURAL precisa considerar todas as etapas do
Ciclo da Produção Cultural: a inspiração
que se transforma em idéia, a idéia que é
planejada e vira um projeto, o projeto que passa por uma estratégia
de marketing para chegar ao mercado, a negociação
até o contrato, a produção (equipe, capacidade
de realização, melhor época de realização,
local, etc) e o planejamento da mídia, para chegar ao público
que deseja atingir, cujo perfil deve ser conhecido antecipadamente
e com a máxima clareza.
8- MARKETING CULTURAL é uma estratégia de troca:
troca-se recursos de patrocínio por retorno institucional
(e também por abatimentos nos impostos da empresa, quando
se utilizam as leis de incentivo fiscal à cultura). A empresa,
ao fortalecer sua imagem pela simpatia que estabelece com o público
e a sociedade em geral, também aumenta a venda de seus
produtos ou serviços.
9- Muitas vezes o caminho para se chegar a uma empresa é
indireto. É preciso saber quem influencia quem decide.
Para quem a empresa não pode negar um pedido de atendimento?
Um cliente? Um revendedor? Se você desejar obter tinta para
pintar um prédio histórico, não peça
diretamente à fábrica. Associe-se primeiro à
maior loja de tinta da sua cidade. Lembre-se: é a loja
que vende tinta. Sua influência pode ser decisiva.
10- Responda rápido. O que é mais fácil:
chegar numa grande empresa de petróleo sozinho com seu
projeto para buscar patrocínio ou ir acompanhado do proprietário
de uma rede de postos de gasolina?
11- Como ser recebido numa empresa para apresentar um projeto?
Primeiro: telefone. Você vai se surpreender ao saber que,
em muitas empresas, o executivo que decide atende diretamente
e marca os encontros. Segundo: passe um E-mail; pode funcionar.
Terceiro: busque algum conhecido que trabalhe lá e vá
indicado por ele. Mas procure sempre estabelecer um encontro.
Nada como olho no olho e cara a cara, para se viabilizar um projeto.
12- Antes de tudo, procure iluminar seu projeto. Lembre-se: um
projeto é uma idéia, uma proposta (um sonho) na
forma de papel. Como ele ainda não foi realizado, é
um produto imaterial, não pode ser testado antes de ser
comprado. É preciso que esta idéia, cheia de energia
positiva, apareça, ganhe vida e força para acontecer.
Registre-a e mostre-a para que ela vá ganhando presença
no inconsciente coletivo das pessoas.
13- Não tenha medo de que seu projeto seja roubado. Perceba
que você captou uma idéia que está no subjetivo
de todos. Outras pessoas podem captá-la.
14- A apresentação visual do seu projeto é
fundamental, assim como a objetividade da sua proposta. Não
escreva uma tese. Deixe os textos longos para um segundo momento.
Não faça poesia. Não procure mostrar erudição.
Ao apresentar uma proposta de um espetáculo teatral, leve
sempre o texto da peça numa pasta à parte e saiba
perceber o momento propício de apresentá-lo.
15- Não confie muito num patrocinador que estiver interessado
apenas em projetos enquadrados nas leis de incentivo e que não
deseja nem conhecer o conteúdo do seu projeto. Pode estar
certo que mais adiante o seu prejuízo será grande.
16- O boato
que corre no mercado de que o patrocinador que utiliza incentivos
fiscais é investigado por fiscais da Fazenda é a
maior mentira que existe no mercado cultural. É um boato
criado possivelmente por quem não gosta de dar incentivos,
desconhece o papel social das empresas e cuida apenas do lucro,
sem dar qualquer retorno à sociedade que sustenta sua empresa.
17- O caminho consciente para a viabilização de
um projeto não é aquele que vai da emoção
para o público, do público para mídia e da
mídia para o mercado. Este sentido torna seu projeto vazio
de conteúdo e identidade. O caminho da arte é duro
parte da emoção, da visão, para o
planejamento e depois para o mercado, de forma a despertar a mídia
e o público.
18- Todo projeto se viabiliza através de uma Rede de Parcerias.
Forme a sua.
19- Para um empresário do tipo perfeccionista,
saiba que ele vai tentar alterar, mesmo que seja em pequenos detalhes,
o seu projeto de forma que fique como ele gostaria que
fosse. Afinal, quem conhece a empresa é ele.
20- Não é necessário mudar o conteúdo
de um projeto para atender a um patrocinador. As mudanças
que podem acontecer referem-se à forma de apresentação
do projeto, à inserção de retornos, detalhes
do plano de mídia e outros relativos aos interesses diretos
do patrocinador mas nunca interferem diretamente na criação.
21- Coloque sempre no seu projeto esta afirmação:
estamos abertos para discutir outras formas de retorno de
interesse da empresa.
22- Um captador de recursos é um péssimo
nome dado a um profissional fundamental para viabilizar um projeto.
Podemos chamá-lo de consultor de marketing cultural,
de engenheiro cultural ou assessor de marketing
cultural.
23- Um consultor de marketing cultural pode receber para captar
recursos para um projeto até o valor de 10% (em relação
ao valor global da produção do projeto), correspondendo
ao item agenciamento, conforme estabelece a Lei Rouanet.
Este percentual acabou se tornando um padrão no mercado,
mas, dependendo do trabalho, a negociação é
livre.
24- Diante de qualquer projeto que você deseja viabilizar
no mercado é necessário perguntar: O que este
projeto tem a ver com a minha trajetória e experiência
de vida? Caso seja realmente vital para você, então
com um pouco de conhecimento do mercado, apoio de profissionais
e constituição de uma rede de parcerias, com toda
certeza ele será viabilizado. Lembre-se que sonhar é
construir no futuro.
25- Lembre-se sempre: quando acreditamos realmente em alguma coisa
com benefício social, todos colaboram para que ela aconteça.
26- O profissional de marketing cultural e cultural marketing
é o artista do mercado. Ele precisa conhecer bem o projeto,
os proponentes, artistas, a obra em pauta, as etapas de produção,
a mídia necessária e possuir relacionamentos com
empresários. Deve estar sempre atualizado com as oportunidades
de negócios do mercado. Precisa ler revistas empresariais
que falam das questões internas e os produtos de potenciais
patrocinadores. Deve conhecer os prazos para apresentação
de projetos nas empresas e muito mais. Não é uma
pessoa fria, muito pelo contrário: deve ter sensibilidade
total da poesia à lógica de venda.
27- Não se vende um projeto cultural, portanto não
há motivo nenhum para você ter trauma de venda. Nós
apresentamos um projeto cultural ao mercado. Se um projeto cultural
fosse vendido para um patrocinador, ele o levaria para casa.
28- Para um patrocinador emotivo, não se esqueça
de dizer que ele será convidado para subir no palco no
dia do lançamento do projeto para receber uma homenagem
espontânea dos artistas. Por mais que ele diga
que isto não é preciso, vai gostar da idéia.
Agora, para um patrocinador do tipo auditor, fechado,
nem pense em convidá-lo para aparecer pois ele quer
ficar de longe, observando.
29- É difícil você viabilizar mais de um projeto
para uma mesma empresa. Como você levou muito tempo para
conseguir entrar lá, não custa nada divulgar os
critérios dessa empresa para o mercado.
30- Este é um mercado no qual não se trabalha sozinho.
Um projeto cultural na gaveta, dificilmente sai dela por demanda
de mercado. Ninguém vai ligar para um poeta perguntando:
Por acaso você tem aí em casa um conjunto de
poemas para publicar um livro? Um projeto acontece através
de redes: você envolve com a sua fé uma dezena de
pessoas que, por empatia com o projeto, sensibilizam outras, até
que uma energia luminosa se condensa numa cadeia produtiva e aí
começam as coincidências (que não são
coincidências): alguém o procura; uma pessoa que
você há muito tempo não vê, telefona;
um amigo de infância assume a gerência de marketing
de uma empresa patrocinadora e assim vai acontecendo o seu projeto.
31- Nunca despreze sua agenda de telefones, inclusive aquela antiga.
Tenha sua agenda organizada, saiba onde estão as pessoas.
Crie sua rede de contatos. O Senhor Nélio Botelho, líder
dos caminhoneiros, faz uma greve nacional, falando apenas com
150 líderes, que por sua vez mobilizam milhares.
32- Para uma boa prestação de contas ao Poder Público,
de um projeto que utilizou as leis de incentivo, é necessário
pensar na administração dos recursos desde a elaboração
do orçamento. Saiba que a Consolidação
Bancária (transcrição do extrato da
conta do projeto com informações sobre entradas
e despesas) é que será avaliada pelos órgãos
de governo.
33- A identidade cultural brasileira é o nosso melhor negócio.
Projetos neste sentido ganharão força nos próximos
dez anos. Toda moeda tem duas faces: a cara e a coroa. A coroa
representa os recursos e a cara a nossa cultura e a nossa identidade.
Não haverá desenvolvimento sem os dois lados da
moeda.
34- Da mesma forma que um artista plástico faz pesquisas
de materiais e temas para sua obra, o profissional de marketing
cultural e de cultural marketing analisa um projeto e suas possibilidades
no mercado.
35- Caso você esteja começando no mercado e pensa
que seu projeto, por exemplo, de uma peça de teatro, não
será nem analisado por um patrocinador, existem duas saídas.
Em primeiro lugar, não tenha este preconceito, pois novos
talentos são cada vez mais alvo das empresas patrocinadoras;
em segundo, se este for o impedimento, convide um ator ou diretor
conhecido para apresentar seu projeto. Escreva na capa Alberto
Roberto apresenta: O Grupo Novo de Teatro e vá em
frente.
36- A melhor época para apresentar um projeto a patrocinadores
é de agosto a novembro, período no qual eles estão
pensando nos investimentos de marketing que farão no ano
seguinte. Embora seja grande o número de empresas recebem
projetos ao longo de todo o ano. Saiba qual o melhor período
para apresentar projetos a cada uma. Algumas empresas estão
passando a receber projetos via INTERNET e outras contratando
profissionais do mercado para analisar previamente projetos, segundo
critérios pré-estabelecidos. Nunca se esqueça
de que cada caso é um caso.
37- A maioria das empresas não possui um Plano de Marketing
Cultural ou critérios objetivos de patrocínio. Isto
torna o mercado muito aberto. O Perfil de Empresas Patrocinadoras
poderá facilitar seu trabalho neste sentido.
38- O mercado cultural ainda é muito desunido e
isto é ruim. Procure formar redes de parceria, precisamos
ser mais profissionais, com ética, sem qualquer prejuízo
para as obras ou para nossos artistas. Não tenha preconceito
quanto ao mercado cultural ele é o lugar
onde vendemos ingressos, quadros, livros, buscamos apoios e patrocínios.
39- O mercado cultural vai muito além do que se imagina:
ele possui interfaces com o turismo cultural, gastronomia típica,
educação, área social, ciência e tecnologia,
urbanismo, lazer, saúde, comunicação, artesanato
e muitas outras áreas indispensáveis ao desenvolvimento
humano, econômico e social.
40- É a falta de cultura que não percebe a importância
da cultura no desenvolvimento de um país.
41- A educação ensina a ler e escrever, mas só
a cultura ensina a enxergar.
42- Um projeto cultural com interface social pode fornecer ao
patrocinador, além de incentivos fiscais, mídia
espontânea e benefícios definitivos para as pessoas
envolvidas, como o desenvolvimento da criatividade, auto-estima,
relacionamento e segurança. Um projeto apenas social não
oferece tudo isso e pode cair no paternalismo filantrópico.
43- Patrocinadores da construção civil preferem
patrocinar livros sobre os bairros e as cidades onde possuem negócios.
Também atuam na restauração de patrimônios
históricos. Tais critérios têm coerência.
Os livros aproximam a empresa dos moradores e a preservação
de patrimônios históricos, além de utilizar
os mesmos materiais que eles utilizam na construção
(identidade), agregam valores de idade (credibilidade) memória
e história às suas marcas.
44- Ao patrocinar novos talentos, uma empresa agrega à
sua marca o valor de quem sabe apostar no futuro.
45- Algumas empresas preferem o teatro pela possibilidade do marketing
de relacionamento, ou seja, poder realizar apresentações
fechadas com seus clientes.
46- Muitas empresas escolhem uma área apenas de patrocínio,
outras definem um critério para todas as áreas,
por exemplo: projetos que valorizem a identidade cultural
do local onde atuam. Outras partem para grandes eventos
de massa. Cada caso é um caso.
47- Um patrocinador do tipo autoritário, daqueles que possuem
uma mesa grande com fotos suas e diplomas na parede, antes de
ler o seu projeto, vai querer saber quem lhe indicou, que interesses
possui nesta pessoa ou instituição. Patrocinará
para aumentar seu poder e negócios, ou por uma amizade
fiel. Não abaixe a cabeça ao dialogar com uma personalidade
autoritária que fala alto e é agressiva. Fale no
mesmo tom.
48- Saiba sempre que um não ao seu projeto
não significa nada; é apenas um sinal corretivo
de rumo para uma nova apresentação.
49- Você nunca saberá se um patrocinador vai lhe
receber se você não for procurá-lo. Certo?
50- Finalmente, nunca se esqueça: o objetivo maior de um
artista é a conquista do seu público. Estude tudo
que existe sobre mobilização de pessoas, conquista
e fidelização de clientes. Ter público é
ter mídia. E se você tiver público e mídia,
os patrocinadores baterão à sua porta. Nenhum projeto
resiste se depender apenas de patrocínio.
* Fernando Portella é presidente do Instituto Cultural
Cidade Viva
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